quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Pesqueira, terra do doce - Por Pedro Salviano



A goiaba, fruta nativa (ver http://bit.ly/T0MuF1), promoveu uma mudança radical no progresso de Pesqueira e região. E tudo pelo diferencial descoberto na preparação do seu doce. Mas como tudo isso começou? Quando? Qual a importância das primeiras povoações naquela região para o sertão pernambucano? Quem foram seus primeiros prefeitos?

Conta-nos Luís Wilson, em Ararobá, lendária e eterna, 1980, pág. 28: «1534 - As terras em que estão hoje o município de Pesqueira e de muitos outros... passam a pertencer à capitania de Itamaracá...; 1654: As mesmas terras passam a fazer parte da grande sesmaria doada em Pernambuco a  João Fernandes Vieira, por D. João III, que tomou posse das mesmas em 1666, vendendo-as depois, uma parte, a Manuel da Fonseca Rego e fazendo doação da outra parte aos Padres da Congregação de São Felipe Neri (os Reculetos) do Recife. 1692: O bispo D. Frei Matias de Figueiredo e Melo, sob a invocação de Nossa Senhora das Montanhas, confere à Aldeia de Arorobá os foros de Paróquia. 1698: Tem início a exploração das terras dos Vieira de Melo, em Arorobá, por iniciativa de ... Antônio Vieira de Melo.. excruciando e matando, entre outros gentios, os xucurus e paratiós... »


«E fechado de vez ficava o Senado da Câmara de Cimbres».
Foto e legenda do livro Pesqueira e o antigo Termo de Cimbres. De José de Almeida Maciel. 1980, pág. 45.


Foi, porém, há 250 anos que o município teve sua instalação, em 3 de abril de 1762 (mapa atual de Cimbres: http://bit.ly/PCGE1N) . O Livro da criação da Vila de Cimbres (1762-1867), Centro de estudos da história municipal. Recife, 1985, pág. 41, cita: «E como pela relação dos moradores que atualmente se acham habitando esta povoação antigamente chamada Ararobá, e depois Monte Alegre, a qual agora fica sendo denominada povoação de Cimbres, para evitar a equivocação de outras povoações do mesmo antecedente nome, e constar ter o número de casais e moradores que prescrevem as ordens régias para que da dita povoação se possa criar uma vila... ». Era a sexta vila a ser instalada no estado. Para evitar as constantes confusões sobre os nomes, este mesmo citado livro dá uma nota final, pág. 284: «A confusão que geralmente se estabelece com relação a Cimbres e Pesqueira, seja nas referências históricas, seja no noticiário da imprensa da época, tem sua razão de ser. A vila de Cimbres, formalmente criada pelo Edital de 26-3-1762 (p. 40) e declarada oficialmente em 3-4-1762 (p. 116), foi sede do Termo ou Município de Cimbres até 1836. O ato da criação da Vila foi ratificado somente em 1810. Sabe-se, no entanto, por farta documentação da época que, de fato, a florescente povoação de Pesqueira havia cerca de 4 anos era a sede oficiosa do Termo ou Município. Os apelos do vereador Luiz da Expectação (54) e a ação política decisiva do deputado Leonardo Bezerra de Siqueira Cavalcanti (sobrinho genro de Manuel José de Siqueira) foram fundamentais para obtenção do pleito tantas vezes protelado. E assim foi promulgada a Lei Provincial n". 20, de 13 de maio de 1836, cujo inteiro teor é o seguinte: "Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque, Presidente da Província de Pernambuco: Faço saber a todos os seus habitantes, que a Assembleia Legislativa Provincial decretou e eu sancionei a Resolução seguinte: Art. único — A Sede da Vila de Cimbres, passará para a povoação de Pesqueira. Mando portanto a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da referida Resolução pertencer, que a cumpram a façam cumprir tão inteiramente como nela se contém. O Secretário desta Província a faça imprimir, publicar e correr. Cidade do Recife de Pernambuco aos treze dias de maio de mil oitocentos e trinta e seis; décimo quinto da Independência e Império. L.S. Francisco Paula de Cavalcanti de Albuquerque".
Como se observa do texto da lei transcrita, não houve o ato formal da criação da Vila de Pesqueira, mas tão somente o ato de transferência do local da sede, embora deste se possa deduzir a promoção da povoação a vila. Não se conhece qualquer ato posterior declarando ou mesmo confirmando Pesqueira como vila. Os atos baixados em Pesqueira, por algum tempo, indicavam: "Povoação de Pesqueira na Vila de Cimbres", depois "Vila de Pesqueira em Cimbres", "Vila de Pesqueira no Município de Cimbres" e, conforme consta do Livro de Atas da Câmara, de 9-10-1840 a 12-1-1854, "Vila de Cimbres em Pesqueira" . Em 1872, instalava-se em Pesqueira a Comarca de Cimbres, criada pela Lei no. 1.057, de 7 de junho do mesmo ano. Em 20 de abril de 1880, através da Lei n°. 1484, a Vila de Pesqueira, sede do Município de Cimbres, era elevada à categoria de Cidade com o nome de Sant'Águeda de Pesqueira, denominação que não vingou, ficando a cidade com o nome único de Pesqueira que mantém até os dias de hoje. O Município, porém, somente teria a sua denominação alterada em 1913, com a nova Lei de Organização Municipal que determinava a obrigatoriedade do Município adotar o nome da sede. Estava, assim eliminado o Município de Cimbres do mapa de Pernambuco, ficando, no entanto, o nome de Cimbres mantido na tricentenária vila. »
Em A Cidade das chaminés – História da Industrialização de Pesqueira http://bit.ly/Td10Qk   (Dissertação apresentada como requisito complementar para obtenção do grau de Mestre em Administração, do Centro de Pesquisa e Pós- Graduação em Administração da Faculdade Boa Viagem, 2007) Betânia Flávia Cavalcanti Galindo, pág. 14, confirma:
«Em 1880, Pesqueira passou à categoria de cidade, chamada de Santa Águeda de Pesqueira, tornando-se a 15ª cidade pernambucana e a primeira do Semi-Árido. Quando se diz que Pesqueira originou-se casualmente, deve-se justamente ao fato de ter surgido pela descoberta de um novo caminho para se chegar ao Sertão, através do Vale do Ipojuca, passando pelo sopé da Serra de Ororubá, na qual se localizava a fazenda Poço do Pesqueiro, que deu origem ao nome de Pesqueira. A partir de 1883, quando é empossado o primeiro prefeito do município, a cidade inicia seu desenvolvimento, estimulado pela atividade mercantil que ali se estabeleceu.
Já no livro Pesqueira e o antigo Termo de Cimbres, Recife-PE – 1980 – Biblioteca pernambucana de história municipal – na pág. 79, José de Almeida Maciel mostra que «Do território da antiga freguesia de Cimbres saíram diversas paróquias, sendo as últimas: Moxotó (Sertânia) em 1842, Sant´Águeda (Pesqueira) em 1870, Rio Branco (Arcoverde) em 1919 » .



Do livro Ararobá. Lendária e eterna (notas para a história de Pesqueira). De Luís Wilson, 1980, pág. 205: «O Chalé Maria Brito, vizinho ainda hoje à Fábrica Peixe, Fábrica de Doces Maria Brito (M.B.), Marca Peixe, em Pesqueira, tendo sido no sobrado vizinho ao “Clube  dos 50”, que começaram  D. Dina da Conceição, no fim do século 19, a fabricação de goiabada na “cidadezinha” ».
Do mesmo livro, pág. 201: «O Cap. Carlos  Frederico Xavier de Brito e sua Exma. Esposa D. Maria da Conceição Cavalcanti de Brito, numa foto de um velho Álbum de Pesqueira, estado de Pernambuco, organizado na administração  do “coronel” Cândido Cavalcanti de Brito, na gestão de 1923 a 1925. »


Dona Dina, foto do acervo do Museu Luís Neves.



Mas foi a arte de uma doceira que, criando uma nova maneira de preparar o doce de goiaba, no final do século 19, promoveu o progresso da região. E o Dr. Luís Wilson deixou no seu livro Ararobá, lendária e eterna (Notas para a história de Pesqueira), 1980 – Edição da Prefeitura Municipal de Pesqueira, na pág. 192 o interessante resgate histórico:
«D. Dina foi quem fez com que o “tijolo de goiaba”, vendido em forma de madeira e que embora de sabor agradável, era preto, meio açucarado e de difícil corte, ficasse maleável, transparente, de cor encarnada rosa, bonita, e de novo paladar. “Aperfeiçoou o segredo do ponto e tinha uma ciência própria no preparo, passando depois a vender o doce em latas, sua produção não atendendo a procura. Era feito em tacho comum e mexido a mão”.
A mesma coisa passaram a fazer D. Maria Emília e Maria Frecheiras... e, de pequeno fabrico caseiro dessas três mulheres, tendo D. Dina da Conceição passado a trabalhar na casa de D. Maria Brito (esposa do Capitão Carlos de Brito), ainda no século passado (XIX) e a princípio em dois ou três tachos, surgiu entre nós a Fábrica de Doces Maria Brito (MB), marca Peixe (ainda, hoje, a primeira, talvez, do gênero no Brasil), ou a indústria de doces de Pesqueira... Conta-se que não acreditou o Capitão, a princípio, na iniciativa da esposa. Sua paixão era a casa comercial do velho sobrado, somente depois de um ou dois anos desfazendo-se do negócio e voltando-se de corpo e alma para a pequenina fábrica de D. Maria Brito, mulher extraordinária, como tantas outras, “de heroísmo e sacrifícios apagados na poeira do tempo, em toda a vastidão do território nacional” ».

E retomamos a dissertação de Betânia Galindo A Cidade das chaminés – História da Industrialização de Pesqueira http://bit.ly/Td10Qk   para melhor entender a ascensão e queda desse desenvolvimento:
«Com a chegada da estrada de ferro em 1907, a atividade comercial de Pesqueira atingiu seu ponto máximo e em razão de sua força econômica, logo no início do século passado a cidade contava com serviços impensáveis em outras comunidades interioranas, como uma eficiente iluminação elétrica, água encanada, serviço telefônico, serviço urbano de bondes de tração animal, além de uma vida social efervescente para uma cidade provinciana...
Pesqueira desenvolvia-se velozmente e em decorrência de seu rápido crescimento foi cognominada de a “Terra do Doce”, “Cidade das Chaminés” e “Capital do Tomate”, este último epíteto em virtude de ter sido o primeiro município a produzir o tomate rasteiro no Brasil, próprio para industrialização, e um dos maiores produtores de tomate em terras contínuas do mundo.
Contudo, todo o sucesso conquistado até a década de 1950 não garantiu uma estrutura suficientemente segura para conter os fatores que fizeram com que o ditoso município de Pesqueira visse sucumbir as suas tradicionais indústrias.
Muitas foram as causas que levaram as fábricas a fecharem suas portas, mas dentre as principais pode-se destacar as difíceis condições edafo-climáticas; a escassez dos frutos; o crescimento das pragas, gerando o aumento do custo com adubos e defensivos agrícolas; o contexto nacional de favorecimento econômico das empresas do Centro-Sul; o desenvolvimento da fruticultura no Vale do São Francisco, entre outros que, reunidos, provocaram o fim da atividade agroindustrial do município. »


Antigos prefeitos de Pesqueira

Condensado de artigo de Oton Augusto de Almeida, publicado no jornal Nova Era, o livro Pesqueira Secular. Crônicas da velha cidade, edição comemorativa do 1º. Centenário de Pesqueira, 1880-1980, pág. 21, apresentou:
«Oficializada sua autonomia como município, após treze anos desde que galgara categoria de cidade, Pesquei­ra teve à frente de sua administração municipal os seguin­tes prefeitos, até os dias que correm [1980]:
1893/95 — Cel. André Bezerra do Rego Barros. Era Presidente da Província o Dr. Alexandre José Barbosa Lima.
1895/98 — Pedro Clementino Leite, que faleceu 28 dias decorridos da posse. Nova eleição, vence o Cel. Francis­co Sinésio de Araújo Cavalcanti, este posteriormente eleito deputado estadual é substituído por Tomaz de Aquino Almeida Maciel, dado o impedimento, por doença, do subprefeito Odilon Cordeiro da Fonseca.
1898/901 — Thomaz Sinésio de Araújo Cavalcanti.
1901/04 — Francisco Sinésio de Araújo Cavalcanti.
Segunda escolha, posto governasse durante 1895/98. 1904/07 — Tomaz Sinésio Araújo Cavalcanti, eleito, outra vez, desta em substituição ao mano.
19077/10 — Francisco Sinésio Araújo Cavalcanti. A fraternidade eleitoral, no começo do século, era um fato.
1910/13 — Cel. Carlos Frederico Xavier de Brito. Ausentou-se do município por duas vezes, fora substituído pelo Major Sátiro Leite e pelo Tte. Cel. João Batista Muniz Falcão, respectivamente.
1913/16 — Tte.-Cel. Honório Tenório de Carvalho Cavalcanti. Nascido no Município de Pedra.
1916/19 — Dr. José Bezerra Cavalcanti, que ao assumir o cargo, logo transfere-o ao substituto legal, João Luiz Bezerra Cavalcanti.
1919/23 — Major Luiz Tenório de Albuquerque. Durante sua gestão, três presidentes passaram pelo governo do estado, ficando discricionariamente mais um ano na Pre­feitura.
1923/25 — Major Cândido Cavalcanti de Brito. Trou­xe o Governador a visitar Pesqueira, construiu escolas na sede e nos distritos.
1925/26 — Tte. Cel. João Batista Muniz Falcão. Desentendimento político-partidário fê-lo renunciar ao cargo em 20 de setembro de 1926, assumindo o então Presidente do Conselho Municipal, no período;
1926/27 — José de Almeida Maciel. Historiógrafo,  publicou interessantes trabalhos sobre a toponímia do município de Pesqueira.
1927/28 — Major Cândido de Brito. Situação agita­da no Estado e no País, não foi possível ao administrador desenvolver qualquer plano administrativo.
1929/30 — Antônio Artur de Almeida Soares. Eleito a 15 de novembro de 1929, a Revolução de outubro do ano seguinte o afastou em definitivo do cargo.
1930/34 — Eliseu Elói Cavalcanti. Nomeado Prefeito a 18 de outubro, pelo governo revolucionário.
1934/36 - Tte. Severiano Jatobá. Proveitosa administração. Quebrou tabus quanto a empecilhos ao alinhamen­to de vários trechos da cidade.
1936/37 — Tte. Dorgival de Oliveira Galindo. Posse em agosto-36. Funcionou até dezembro-37, quando do golpe de Estado perpetrado por Getúlio Vargas.
1937/39 Agostinho Bezerra Cavalcanti. Nomeado a 11 de dezembro-37, ficou até 5 de agosto-39.
1939/45 Dr. João Arruda Marinho dos Santos. En­tre outros feitos do seu governo no município, registre-se a inauguração do Açude Afetos. Campo de pouso.
1945/47 Entre outubro de 1945 e novembro de 1947 houve várias nomeações de prefeito para Pesqueira. Com o afastamento do Dr. Arruda Marinho, vêm as nomeações do Dr. Pedro Cupertino Callou; Dr. Lídio Paraíba; Cel. Urbano Ribeiro de Sena. Com o afastamento desse último, por motivo de saúde, com nomeação assume interinamente Eugênio Maciel Chacon, durante parte do ano de 1947. Re­torna o Cel. Urbano que ainda uma vez se afasta entregan­do o cargo a Laércio Vilela Valença que dirigiu o município de agosto a novembro-47.
1947/51 — Dr. Ésio Magalhães Araújo. Doação de terreno para a Rádio Difusora de Pesqueira, para o Posto de Puericultura. Reconstrução, sem descaracterizá-lo, do antigo prédio do Senado da Câmara de Cimbres, dando-lhe a categoria de monumento histórico.
1951/55 — Laércio Vilela Valença. Eleito pela legenda do PSD. Deixou bom lastro de realizações. Homem de invejável formação moral.
1955/59 — Manoel Tenório de Brito. Transformou o antigo prédio da Usina Elétrica, em Grupo Escolar Professor José de Almeida Maciel. Pavimentação a paralelepípe­dos, de trechos da cidade.
1959/63 — Luiz de Oliveira Neves. Interrompeu a administração da prefeitura, para assumir como deputado à Assembleia Legislativa do estado. A vaga deixada é preenchida pelo vice-prefeito, Dr. Petronilo Rodrigues de Freitas.
1963/69 — Manoel Tenório de Brito. Leve-se a débito da Revolução de 64 essa dilatação de prazo na gerência da Prefeitura. Entre algumas outras coisas, registre-se nessa administração de seis anos pavimentação do bairro dos Xucurús e também construção de Mercado Público para cereais.
1969/73 — Luiz de Oliveira Neves. Consecução da 3ª.  Companhia de Polícia. Aquisição do antigo palacete do Cel. Antônio Didier, e instalação ali da prefeitura.
1973/76 — José Valderique Tenório. Entrada asfaltada da cidade. Terminal rodoviário. Ligação telefônica in­terurbana. Água do Bituri.
1976 — Eutrópio Monteiro Leite. Em pleno exercício. Conseguiu agências do BANDEPE e da Caixa Econômica Federal para a cidade. Há uma boa gama de realizações em projeto, para o período restante de seu governo. Grande honraria lhe foi prestada pelos fados, a de estar à frente da prefeitura no ano do centenário de Pesqueira. »
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